A primeira nação a abolir a escravidão nas Américas com a única revolta escrava de sucesso teve um triste começo de 2010. Muito triste. Vou deixar aqui algumas poucas recomendações para os interessados em conhecer um pouco mais da historiografia da revolução haitiana, dando preferência para o que pode ser encontrado em português. No final vou deixar uns nomes em inglês para quem quiser ir mais a fundo na historiografia atual.
Para quem tiver condições de fazer doações, um amigo recomendou o Partners in Health.
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C. L. R James, The Black Jacobins; Toussaint Louverture and the San Domingo Revolution (New York: The Dial Press, 1938).
Link para a edição brasileira: http://www.boitempo.com/livro_completo.php?isbn=978-85-85934-48-4
Esse é O clássico do assunto, o eterno Jacobinos Negros de C.L.R. James de 1938. O autor é um marxistão barra pesada, ex-comentarista de críquete, que escreveu essa maravilha sobre a Revolução de Saint Domingue. Não se deixem enganar pela data, a escrita é deliciosa e a tradução brasileira é excelente. Na época em que escreveu, o James estava ainda bastante inspirado pela Revolução Russa. É interessante ver ele falando sobre como Toussaint L’ouverture teve que ter mão de ferro para controlar a revolução de forma semelhante à Trotsky, quanto o último esmagou a famosa revolta de Kronstadt.
O próprio James, no entanto, passou a flertar cada vez mais com correntes autonomistas do comunismo e, acredito eu, passou a apreciar um pouco mais o próprio movimento de Kronstadt. Para quem tiver curiosidade, ele teve uma atuação importantíssima entre ultra-esquerdistas norte-americanos, fundando ao lado de Raya Dunayevskaya a famosa tendência Johnson-Forest.
Outra passagem divertida é quando ele argumenta que os franceses colocavam a cartilha de direitos humanos dentro do bolso quando o assunto era Saint Domingue (comentário que o Robert Kurz iria ecoar 60 anos mais tarde).
O livro é, portanto, bem centrado na atuação das lideranças da revolução. Pouco sabemos das aspirações e expectativas de ex-escravos. Ainda assim, enquanto uma história política dos conflitos que desembocaram na revolução, continua extremamente útil.
Um clássico absoluto.
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Eugene D Genovese, From Rebellion to Revolution: Afro-American Slave Revolts in the of the Modern World (Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1979).
No Brasil lançado como “Da Rebelião à Revolução” e facilmente encontrado em sebos.
Como o livro do James, recheado de problemas. Mas ainda assim genial. Esse não é tão especificamente sobre a revolução haitiana, mas mais uma reflexão de seus significados. A grosso modo, Genovese argumenta que revoltas escravas no novo mundo eram, via de regra, “restauracionistas.” Elas visavam reconstituir um mundo Africano no novo mundo, sendo os quilombos os melhores exemplos. Não havia um questionamento da instituição escravista. De acordo com Genovese, a Revolução Francesa e, especialmente, a Revolução Haitiana, transformaram radicalmente as expectativas e características das rebeliões escravas. De restauracionistas, tais movimentos passaram a fazer a crítica abolicionista da escravidão e tiveram como meta a integração na sociedade burguesa. Genial demais e maravilhosamente escrito, como é o caso de todos seus outros livros (sou um grande fã, depois vou fazer um post especial sobre a historiografia do Genovese com uma bela foto de meus livrinhos lindos).
Apesar de fundamental e precursor em diversos sentidos, o livro carrega alguns grandes problemas. Para os que tiverem a oportunidade de ler e quiserem uma crítica poderosa do texto, recomendo o artigo de um dos meus haitianistas favoritos:
David P. Geggus, “The French and Haitian Revolutions and Resistance to Slavery in the Americas: An Overview,” Revue Française d’Histoire d’Outre-Mer 282-283 (1989): 107-23.
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Eric Foner, Nothing but Freedom: Emancipation and Its Legacy (Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1984).
Em português “Nada Além da Liberdade,” lançado pela editora Paz e Terra.
Certamente um dos livros mais importantes em minha formação. Sou um grande fã desse pequeno livro. A preocupação central é Estados Unidos, mas em um esforço de colocar a experiência pós-emancipação norte-americana em um contexto Atlântico, ele faz um belo apanhado da história da abolição no Caribe, principalmente Haiti. Na segunda e terceira seções, respectivamente, ele muda a escala de análise para a política do pós-emancipação nos EUA como um todo e os conflitos entre Estado, ex-senhores de escravos e ex-escravos em uma pequena localidade produtora de arroz na Carolina do Sul. A primeira seção no Caribe é um bom ponto de partida para quem quiser conhecer mais sobre o tema.
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Laurent Dubois, Avengers of the New World: The Story of the Haitian Revolution (Cambridge, Mass: Belknap Press of Harvard University Press, 2004).
Esse, infelizmente, não tem tradução para o português ainda. Mas, para quem lê inglês, é provavelmente a síntese mais atualizada sobre o tema e escrita por um cara que manja demais sobre esse negócio. A pesquisa original dele é sobre Guadeloupe, o maravilhoso “Colony of Citizens.” Mas na mesma época ele publicou essa bela síntese. Aqui ele aborda alguns dos principais temas da historiografia: o papel dos quilombos na explosão da revolta, vodu, identidades africanas e por aí vai.
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Por fim, há algumas coletâneas de artigos muito boas sobre a revolução haitiana e seus significados. Ficam aí algumas referências com os principais historiadores trabalhando com o tema atualmente.
- David Gaspar, A turbulent time : the French Revolution and the Greater Caribbean (Bloomington: Indiana University Press, 1997).
- The Impact of the Haitian Revolution in the Atlantic World (Columbia, S.C: University of South Carolina, 2001).
- David Patrick Geggus and Norman Fiering, The World of the Haitian Revolution (Indiana University Press, 2008).
Ps: agora que acabei o post acabei de me lembrar de um texto MA-RA-VI-LHO-SO do Michel Trouillot chamado “System In Motion,” sobre negros livres que ocuparam a região sul de Saint Domingue e iniciaram uma produção enorme de café (Saint Domingue era a maior produtora de açúcar e café às vésperas da revolução) baseada em trabalho escravo. Aliás, vários desses pequenos produtores estavam entre os refugiados que foram para Cuba, New Orleans e diversas outras regiões do Atlântico após a explosão da revolta. Mas vou deixar detalhes dessa outra história para depois. Vou tentar escanear esse artigo para compartilhar mais tarde.



















Susan Migden Socolow, 
