janeiro 16, 2010

Rápido guia para a historiografia da revolução haitiana

A primeira nação a abolir a escravidão nas Américas com a única revolta escrava de sucesso teve um triste começo de 2010. Muito triste. Vou deixar aqui algumas poucas recomendações para os interessados em conhecer um pouco mais da historiografia da revolução haitiana, dando preferência para o que pode ser encontrado em português. No final vou deixar uns nomes em inglês para quem quiser ir mais a fundo na historiografia atual.

Para quem tiver condições de fazer doações, um amigo recomendou o Partners in Health.

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C. L. R James, The Black Jacobins; Toussaint Louverture and the San Domingo Revolution (New York: The Dial Press, 1938).

Link para a edição brasileira: http://www.boitempo.com/livro_completo.php?isbn=978-85-85934-48-4

Esse é O clássico do assunto, o eterno Jacobinos Negros de C.L.R. James de 1938. O autor é um marxistão barra pesada, ex-comentarista de críquete, que escreveu essa maravilha sobre a Revolução de Saint Domingue. Não se deixem enganar pela data, a escrita é deliciosa e a tradução brasileira é excelente. Na época em que escreveu, o James estava ainda bastante inspirado pela Revolução Russa. É interessante ver ele falando sobre como Toussaint L’ouverture teve que ter mão de ferro para controlar a revolução de forma semelhante à Trotsky, quanto o último esmagou a famosa revolta de Kronstadt.

O próprio James, no entanto, passou a flertar cada vez mais com correntes autonomistas do comunismo e, acredito eu, passou a apreciar um pouco mais o próprio movimento de Kronstadt. Para quem tiver curiosidade, ele teve uma atuação importantíssima entre ultra-esquerdistas norte-americanos, fundando ao lado de Raya Dunayevskaya a famosa tendência Johnson-Forest.

Outra passagem divertida é quando ele argumenta que os franceses colocavam a cartilha de direitos humanos dentro do bolso quando o assunto era Saint Domingue (comentário que o Robert Kurz iria ecoar 60 anos mais tarde).

O livro é, portanto, bem centrado na atuação das lideranças da revolução. Pouco sabemos das aspirações e expectativas de ex-escravos. Ainda assim, enquanto uma história política dos conflitos que desembocaram na revolução, continua extremamente útil.

Um clássico absoluto.

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Eugene D Genovese, From Rebellion to Revolution: Afro-American Slave Revolts in the of the Modern World (Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1979).

No Brasil lançado como “Da Rebelião à Revolução” e facilmente encontrado em sebos.

Como o livro do James, recheado de problemas. Mas ainda assim genial. Esse não é tão especificamente sobre a revolução haitiana, mas mais uma reflexão de seus significados. A grosso modo, Genovese argumenta que revoltas escravas no novo mundo eram, via de regra, “restauracionistas.” Elas visavam reconstituir um mundo Africano no novo mundo, sendo os quilombos os melhores exemplos. Não havia um questionamento da instituição escravista. De acordo com Genovese, a Revolução Francesa e, especialmente, a Revolução Haitiana, transformaram radicalmente as expectativas e características das rebeliões escravas. De restauracionistas, tais movimentos passaram a fazer a crítica abolicionista da escravidão e tiveram como meta a integração na sociedade burguesa. Genial demais e maravilhosamente escrito, como é o caso de todos seus outros livros (sou um grande fã, depois vou fazer um post especial sobre a historiografia do Genovese com uma bela foto de meus livrinhos lindos).

Apesar de fundamental e precursor em diversos sentidos, o livro carrega alguns grandes problemas. Para os que tiverem a oportunidade de ler e quiserem uma crítica poderosa do texto, recomendo o artigo de um dos meus haitianistas favoritos:

David P. Geggus, “The French and Haitian Revolutions and Resistance to Slavery in the Americas: An Overview,” Revue Française d’Histoire d’Outre-Mer 282-283 (1989): 107-23.

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Eric Foner, Nothing but Freedom: Emancipation and Its Legacy (Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1984).

Em português “Nada Além da Liberdade,” lançado pela editora Paz e Terra.

Certamente um dos livros mais importantes em minha formação. Sou um grande fã desse pequeno livro. A preocupação central é Estados Unidos, mas em um esforço de colocar a experiência pós-emancipação norte-americana em um contexto Atlântico, ele faz um belo apanhado da história da abolição no Caribe, principalmente Haiti. Na segunda e terceira seções, respectivamente, ele muda a escala de análise para a política do pós-emancipação nos EUA como um todo e os conflitos entre Estado, ex-senhores de escravos e ex-escravos em uma pequena localidade produtora de arroz na Carolina do Sul. A primeira seção no Caribe é um bom ponto de partida para quem quiser conhecer mais sobre o tema.

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Laurent Dubois, Avengers of the New World: The Story of the Haitian Revolution (Cambridge, Mass: Belknap Press of Harvard University Press, 2004).

Esse, infelizmente, não tem tradução para o português ainda. Mas, para quem lê inglês, é provavelmente a síntese mais atualizada sobre o tema e escrita por um cara que manja demais sobre esse negócio. A pesquisa original dele é sobre Guadeloupe, o maravilhoso “Colony of Citizens.” Mas na mesma época ele publicou essa bela síntese. Aqui ele aborda alguns dos principais temas da historiografia: o papel dos quilombos na explosão da revolta, vodu, identidades africanas e por aí vai.

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Por fim, há algumas coletâneas de artigos muito boas sobre a revolução haitiana e seus significados. Ficam aí algumas referências com os principais historiadores trabalhando com o tema atualmente.

  1. David Gaspar, A turbulent time : the French Revolution and the Greater Caribbean (Bloomington: Indiana University Press, 1997).
  2. The Impact of the Haitian Revolution in the Atlantic World (Columbia, S.C: University of South Carolina, 2001).
  3. David Patrick Geggus and Norman Fiering, The World of the Haitian Revolution (Indiana University Press, 2008).

Ps: agora que acabei o post acabei de me lembrar de um texto MA-RA-VI-LHO-SO do Michel Trouillot chamado “System In Motion,” sobre negros livres que ocuparam a região sul de Saint Domingue e iniciaram uma produção enorme de café (Saint Domingue era a maior produtora de açúcar e café às vésperas da revolução) baseada em trabalho escravo. Aliás, vários desses pequenos produtores estavam entre os refugiados que foram para Cuba, New Orleans e diversas outras regiões do Atlântico após a explosão da revolta. Mas vou deixar detalhes dessa outra história para depois. Vou tentar escanear esse artigo para compartilhar mais tarde.

dezembro 6, 2009

DIA IMPORTANTE PARA O FUTEBOL

Ontem foi o dia mais importante de 2009 para o futebol brasileiro, amigos. Depois de 10 anos, Marcelo Teixeira, presidente de espírito oligárquico do Santos, perdeu, e feio, para a oposição liderada pelo Luís Alvaro de Oliveira Ribeiro, o LAOR. Foi épico demais. Braço quebrado, cadeiras voando, spray de pimenta, Milton Neves xingado, enfim, nada além do normal nas eleições futebolísticas neste cantinho do mundo chamado Santos.

Eu fiquei eufórico, confesso. Um espírito meio Lula/Obama. Foi muito gostoso. Como historiador, abandonei esse negócio de “bem x mal espanta o temporal” faz muito tempo (ao contrário do piadista Muricy Ramalho). Mas que tinha muita coisa errada rolando, isso tinha. O principal erro era a turminha achando que tava por cima da cocada preta.

O que me emociona é não ter que ver cenas como essa ano que vem. Não abrir meu google reader e, achando que estava prestes a ler uma notícia sobre o meu querido Alvinegro Praiano, me deparar com o senhor Luxemburgo chorando alguma coisa sobre o Palmeiras. Esse negócio estava sugando minhas energias. Eu não me importo em não ganhar, não me importo mesmo. Sou um santista que cresceu torcendo durante os anos 90. Tempos de vacas magras, mas sem nunca perder a dignidade. A situação atual estava vergonhosa.

E o Luxa, servindo de cabo eleitoral para Marcelo Teixeira, como no passado, se fodeu! Eu gosto do Luxa como técnico, mas perdeu o rumo faz um tempo. Não sei se foi aquele negócio de mostrar o pênis na webcam, sei lá. Sei que essa passagem pelo Santos foi sua pior de todos os tempos. Quando foi fazer propagandinha para o MT, achando que ia reeleger o homem uma vez mais, o efeito foi contrário. Claro, havia já uma insatisfação generalizada, mas saber que o voto serviria não apenas para trocar o presidente, mas também o técnico, foi, certamente, um motivo a mais.

Agora é hora de cobrar do nosso novo presidente. Já gostei de ler que vai rolar um jogo de despedida para o MESSIAS.

Vai Santos. Volta para o lugar que te pertence: o MUNDO!

dezembro 2, 2009

CURB YOUR ENTHUSIASM

Estava pensando aqui com as minhas catracas que era hora de atualizar meu blog super visitado. Olhei para a minha estante para ver algum livro bacana que li nos últimos tempos para poder recomendar, mas não dá. Agora que passei pelas minhas provas aqui, estou relaxado demais. Só leio uns documentos do século XVIII e XIX e assisto Curb Your Enthusiasm de noite. Vou deixar a recomendação dessa pérola, portanto. E, para não dizer que não tem nada a ver com História, o gênio Larry David é formado em História pela Universidade de Maryland! Pois é. Então tem a ver. Tá em promoção na Amazon, aproveitem. Vale demais, todas as temporadas. Um Seinfeld elevado à décima potência. Ia descrever umas piadinhas, mas não tenho coragem. Quero que vocês tenha o mesmo prazer que eu tive, ir apreciando aos pouquinhos. Aliás, invejo a todos que nunca assistiram. Se existisse uma empresa que apagasse a memória, naquele esquema meio Total Recall, eu faria sem pensar só para poder assistir tudo de novo. Acabou de acabar a sétima temporada. Me deu um aperto no coração absurdo.

outubro 26, 2009

PLANTING RICE AND HARVESTING SLAVES: Transformations Along the -Bissau Coast, 1400-1900

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Walter Hawthorne, Planting Rice and Harvesting Slaves: Transformations Along the -Bissau Coast, 1400-1900, Social history of Africa (Portsmouth, NH: Heinemann, 2003). 

Bom, uma recomendação rápida que combina bem com meu último post. O livro do Rodney que eu citei antes gerou muito debate na época e nas décadas que se seguiram. J.D. Fage, por exemplo, argumentava que os Europeus utilizaram redes de escravização que já existiam na África sub-saariana e que foram apenas redirecionadas para costa ocidental. Para Rodney o tráfico de escravos gerou um novo tipo de escravidão em uma área na qual a mesma inexistia (as fontes dele no caso descreviam a região da Alta Guiné). O debate assumiu um caráter meio geográfico, com o Fage falando que bastaria ele olhar para a Baixa Guiné ou outras partes da África que ele encontraria a tal rede de escravos já existentes (1).

Pois bem, o tempo passou, as pessoas digeriram o debate e escreveram versões mais refinadas do debate  Mas esse livro do Walter Hawthorne é particularmente importante por tratar exatamente da área que o Rodney tratou. Em uma visita à Guiné, o autor bateu um papinho com pessoas do grupo Balanta e percebeu que não havia uma narrativa de “vitimização” do Atlântico de escravos (2). Ele decidiu ir mais à fundo no assunto e o resultado é esse petardo aí. Um ataque ao que ele chama de “tese do Estado predatório.” Mesmo entre os historiadores que apontavam para a pré-existência de redes de tráfico de escravo no continente, a idéia principal era a de que o tráfico Atlântico fortaleceu grandes estados e impérios Africanos (o Império Oyo, por exemplo) que, por sua vez, destruíram e capturaram pessoas de sociedades descentralizadas existentes por toda a África. Pois bem, o principal argumento do Hawthorne é que os Balanta, mesmo sendo uma sociedade descentralizada, tiveram uma participação ativa no tráfico de escravos. Mais do que isso: a garantia de sua existência face aos Estados predatórios se deu justamente por essa conexão com o comércio Atlântico, tendo acesso à bens fundamentais para a reprodução social do grupo. É aquele tipo de livro que não tem medo de ser polêmico. Eu adoro.

Notas

(1) J. D. Fage, “Slavery and the Slave Trade in the Context of West African History,” The Journal of African History 10, no. 3 (1969): 393-404.

(2) O grande nome no uso de narrativas orais como forma de conhecer o passado Africano é Jan Vansina. Jan M. Vansina, Oral Tradition As History (University of Wisconsin Press, 1985).

outubro 15, 2009

How Europe Underdeveloped Africa

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Walter Rodney, How Europe Underdeveloped Africa, Rev. pbk. ed. (Washington, D.C: Howard University Press, 1981).

Não vou fazer resenha de nada hoje não. É um post só para descontrair. Fico olhando para esse livro do Walter Rodney aqui na mesa e o negócio fica tirando minha atenção. Essa capa é muito incrível. Nada retrata melhor o pensamento de uma época. Esse livro é uma aplicação das famosas “teorias da dependência” – para a qual figurinhas carimbadas da intelectualidade tupiniquim contribuíram – no contexto Africano. Para o Rodney, a história da África desde os princípios do tráfico Atlântico de escravos até a expansão dos livres mercados é uma só: exploração e destruição levada à cabo pela Europa (com a importante contribuição de elites locais Africanas, obviamente). Eu adoro essas coisas de teoria da dependência para entender a cabeça dos caras no século XX. Não tem coisa igual. Olha essa capa, que coisa incrível. As duas mãos brancas dominando completamente uma África indefesa, um pedacinho de papel. Tem uns arquivos pessoais do Walter Rodney arquivados na parte de documentos raros aqui na minha Universidade, diga-se de passagem. Assim que ficar com um tempinho livre vou lá ver qual que é a desse negócio.

outubro 14, 2009

O NASCIMENTO DA CULTURA AFRO-AMERICANA : uma perspectiva antropológica

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Richard Price e Sidney Mintz, O nascimento da cultura afro-americana : uma perspectiva antropológica, 1st ed. (Rio de Janeiro: Pallas, 2003). 

Um post rápido para dizer que este blog não está completamente abandonado (ainda). Ontem estava dando uma relida neste texto clássico dos antropólogos Sidney Mintz e Richard Price escrito em 1972. Os dois propunham um novo modo de abordar o estudo das culturas afro-americanas. Eles viam o estudo como um refinamento dos trabalhos de Melville Herskovits, cujo famoso The Myth of the Negro Past foi um verdadeiro precurssor no estudo dos descendentes de africanos em conexão com a África. Ali os autores propuseram uma abordagem histórica para um assunto que vinha sendo tratado da forma oposta: elencavam-se elementos da cultura nas Américas e buscava-se o correspondente na África. Para Mintz e Price era uma questão de se analisar historicamente quais elementos africanos persistiram e qual o contexto histórico que levou a retenção de uns e não outros. A cultura afro-americana era, portanto, algo novo, uma criação das Américas, e não uma transposição pura e simples da África.

Desde então os estudos sobre escravidão avançaram demais. Descobriu-se, por exemplo, que o tráfico de escravos não havia sido tão aleatório quanto se pensava. Na verdade, é possível observar conexões longas e coerentes entre portos específicos na África e nas Américas. Uma série de livros procurou revisar Mintz e Price argumentando que talvez tenha sido possível a recriação de culturas específicas da África nas Américas. (2)

Pode ser, não sei. Me parece que Mintz e Price ainda tem alguma coisa à dizer para essa historiografia. Gosto das problematizações sobre as diferenças de status e poder entre a população européia e africana. Aguardo ansioso o revival de Mintz e Price (ainda que, para muitos, eles nunca tenham saído de moda).

  1. Melville J Herskovits, The Myth of the Negro Past, 1st ed. (New York: Harper & Brothers, 1941).
  2. Entre outos, John K Thornton, Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400-1800 / Thornton, 2nd ed., Studies in comparative world history (Cambridge: Cambridge University Press, 1998). Michael Angelo Gomez, Exchanging Our Country Marks: The Transformation of African Ties in the Colonial and Antebellum South (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 1998). Gwendolyn Midlo Hall, Africans in Colonial Louisiana: The Development of Afro-Creole E in the Eighteenth Century, Louisiana pbk. ed. (Baton Rouge: Louisiana State University Press, 1995). Gwendolyn Midlo Hall, Slavery and African Ethnicities in the Americas: Restoring The (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2005). James H Sweet, Recreating Africa: Culture, Kinship, and Religion in the N-Portuguese World, 1441-1770 (Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2003). 

setembro 20, 2009

Mineração na América Espanhola

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Potosí ontem e hoje.

Entrei na reta final antes de fazer minhas provas e percebi que acabava perdendo muito tempo tentando postar tudo por aqui. Vou ter que ser bem mais breve nos comentários e vou deixar só uns posts a lá twitter, completamente vazios e sem muito sentido. Brincadeira. Mas serei mais econômico. Depois que passar a fase caótica aí eu posto uns comentários sobre livros de futebol, música e sobre como o Santos é o melhor time do

Mas enfim, esta semana perdi um bom tempo estudando mineração e na América Espanhola, um assunto do qual eu sabia muito pouco. Vou recomendar aqui os excelentes estudos de Peter Bakewell, possivelmente O CARA quando o assunto é mineração. Publicou estudos importantíssimos sobre extração de prata nos Andes e no México. Seu primeiro estudo foi na região de Zacatecas, onde ele demonstrou que a produção de prata, apesar de apresentar quedas em diversos momentos, manteve uma certa regularidade e índice ascendente. Abandonava-se, assim, a idéia de que a crise do século XVII que assolou a Europa (apesar de isso também ser objeto de discussão, como comentei no post sobre o artigo de Jan De Vries) teve um impacto correspondente na América Espanhola. Nos anos seguintes Bakewell prosseguiu publicando excelentes estudos sobre Potosí. Confiram.

  1. P. J Bakewell, Silver Mining and Society in Colonial Mexico: Zacatecas, 1546-1700 / . J. Bakewell, Cambridge Latin American studies 15 (Cambridge [Eng.]: University Press, 1971).
  2. P. J Bakewell, Miners of the Red Mountain: Indian Labor in Potosí, 1545-1650 / R Bakewell, 1st ed. (Albuquerque: University of New Mexico Press, 1984).
  3. P. J Bakewell, Silver and Entrepreneurship in Seventeenth-Century Potosí: The Life and Times of Antonio López De Quiroga, 1st ed. (Albuquerque, NM: University of New Mexico Press in association with nter for Documentary Studies at Duke University, 1988). 

setembro 17, 2009

O DEBATE LANDES-FRANK

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Hoje vou postar aqui os links para um grande debate ocorrido em fins dos anos 90 em uma lista de discussões da internet. As listas da H-NET são simplesmente espetaculares. Lá você encontra outros interessados em diversos temas. Eu mesmo assino umas cinco diferentes e já conheci muita gente legal através das mesmas.

Fuçando hoje descobri um grande debate ocorrido em 1998 quando da publicação do livro de David Landes, The Wealth and Poverty of Nations. Brad DeLong postou uma primeira versão de sua resenha do livro de Landes (as versões finais podem ser lidas na sua excelente página pessoal), gerando um intenso debate entre diversos historiadores, dentre os quais o finado Andre Gunder Frank. Para Gunder Frank e outros praticantes de World History, em especial aquilo que Jack Goldstone chamou de “California School,” o livro de Landes partia de premissas eurocêntricas equivocadas ao procurar origens distantes que levaram ao domínio da Europa Ocidental sobre o resto do mundo. Para pesquisadores como Kenneth Pomeranz (autor do excelente The Great Divergence), R. Bin Wong e o próprio André Gunder Frank, a China ocupou um papel central na história moderna. A Europa não apresentava qualquer vantagem em relação à mesma até fins do século XVIII, quando aí sim acontece a “Grande Divergência (importante observar que há várias diferenças no interior da tal “escola califoniana” nas explicações para a transformação).

Essa moçada iniciou um longo e riquíssimo debate em diversas listas de discussão como a H-World, H-Asia, EconHist e outras. Patrick Manning compilou tudo e disponibilizou na H-World. Como ainda assim tive um pouco de trabalho para localizá-las, decidi postar os links por aqui. Pelo menos eu vou poder me guiar um pouco melhor, já que só li umas quatro partes do total.

Vale lembrar que no fim de 1998 foi organizado um debate entre os dois, cuja transcrição pode ser lida na íntegra aqui.

LANDES-FRANK DEBATE

Parte 1 (review do livro de Landes escrito por Gunder Frank), Parte 2 (de acordo com a descrição do Patrick Manning, seria uma carta de Frank à Landes, mas ainda não encontrei a dita cuja), Parte 3 (aqui começa a compilação de mensagens), Parte 4, Parte 5, Parte 6, Parte 7, Parte 8, Parte 9Parte 10, Parte 11, Parte 12, Parte 13, Parte 14, Parte 15, Parte 16, Parte 17, Parte 18, Parte 19, Parte 20, Parte 21, Parte 22, Parte 23, Parte 24, Parte 25.

O ideal seria salvar esse troço todo em outras páginas. Assim, se um dia a h-net nos abandonar, nós teríamos a garantia de que tais pepitas estariam salvas. Vou ver se me animo de fazer isso em algum momento.

setembro 16, 2009

The Merchants of Buenos Aires, 1778-1810

socolowSusan Migden Socolow, The Merchants of Buenos Aires, 1778-1810: Family and Commerce, 30 (Cambridge [Eng.]: Cambridge University Press, 1978).

Livro EXCELENTE de história social publicado em fins da década de 1970. Aqui estão todos os ingredientes que me fazem apreciar os bons e velhos métodos prosopográficos, com fontes como censos, inventários, processos legais e outros. Socolow olha para o grupo de comerciantes de Buenos Aires e explora as origens, o recrutamento, a reprodução e os laços de parentesco do grupo. Em um último capítulo ela explora a trajetória de um único comerciante, Gaspar de Santa Coloma, para ver como os padrões mais gerais discutidos anteriormente se configuravam na vida de um indivíduo (eu poderia até falar que é um jogo de escalas, mas meus amigos micro-historiadores fundamentalistas vão me dizer que o jogo de escalas da micro-história “é outra coisa,” então melhor eu ficar pianinho).

O vice-reino de La Plata foi fundado em 1776. Comerciantes já existiam em Buenos Aires, então considerada parte de uma região “atrasada” do império espanhol. Com a fundação do vice-reino, e novas regulamentações liberando o comércio de Buenos Aires com outros portos espanhóis, a situação muda radicalmente. Rotas comerciais conectando a cidade ao interior da América Espanhola, em especial às minas de Potosí, fizeram deslanchar o comércio. A demanda internacional por couro e prata colocava os mercadores de Buenos Aires em uma posição privilegiada. Os mesmos enviavam produtos importados, como tecidos, ferramentas e escravos, para os fornecedores de couro e prata. Em suma, os comerciantes de Buenos Aires construíram suas fortunas como mediadores entre o mercado internacional e os fornecedores no interior da província.

Um aspecto interessante é o de que os comerciantes não preparavam seus filhos para se tornarem mercadores. Os cargos preferidos por filhos dos grandes comerciantes eram burocráticos, militares e religiosos, os verdadeiros detentores de prestígio na colônia. O matrimônio das filhas, no entanto, eram arranjados com comerciantes emergentes, uma forma de manter os interesses comerciais da família. Uma consequência óbvia era a constante troca de nomes. Ainda assim, argumenta Socolow, verdadeiras dinastias comerciais se formaram.

Importante notar que o investimento em terras não era procurado pelos comerciantes. Tal elemento se tornou parte dos investimento dessas famílias apenas no século XIX, com a independência e uma valorização veloz do mercado de terras que tomou conta da Argentina nas duas primeiras décadas após a independência.

Ah, Argentina… Argentina… Fico emocionado lendo coisas sobre lá.

setembro 12, 2009

The Economic Crisis of the Seventeenth Century after Fifty Years

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Jan de Vries, “The Economic Crisis of the Seventeenth Century after Fifty Years,” Journal of Interdisciplinary History 40, no. 2 (2009): 151-194. 

Jan De Vries é certamente um dos meus historiadores favoritos da atualidade. Tudo que eu leio desse cara me empolga, é incrível. Você pode até não concordar com as coisas escritas, mas que o cidadão é genial, isso ele é. Uma tristeza não ter nada em português. Alguns de seus trabalhos são essenciais, como seu recente The Industrious Revolution (1).

A crise do século XVII foi popularizada com um famoso artigo de Eric Hobsbawm publicado em duas partes na revista Past and Present em 1954. Ali Hobsbawm argumentou que a tal crise foi fundamental na transição do feudalismo ao capitalismo. O negócio sofreu diversos ataques e foi meio abandonado junto com todo o debate sobre a transição (2). Wallerstein, por exemplo, localiza o surgimento do capitalismo junto com a economia-mundo um século antes (3). Mais recentemente Kenneth Pomeranz, em seu instigante The Great Divergence, localizou a transformação em torno de 1800, um século depois (4).

Para De Vries o momento decisivo ainda está no século XVII. Ele demonstra como a combinação de diversos elementos acabou resultando na “grande divergência.” A crise do XVII, no entanto, não foi uma simples “descentralização e recentralização” dos centros econômicos do mediterrâneo para o norte da Europa, como argumentou Braudel. Não houve um esgotamento da região do mediterrâneo e uma transição automática. De Vries demonstra aspectos comuns da crise nas regiões norte e sul da Europa. De acordo com o autor, “the economic decline was not simply an affair of the Mediterranean; it was much broader in scope. Likewise, the urban leadership issue was not a simple matter of passing the torch to a new center; it was more profound, transforming what was still a polynuclear urban system into the first single-centered urban system of an expanding European world economy.”

A recentralização braudeliana no Norte da Europa, portanto, ocorreu em uma nova escala, algo distinto de toda a história econômica da Europa que antecedeu a crise. Uma nova economia atlântica surgiu com a região noroeste da Europa jogando um papel central. Tal configuração resultou de uma combinação de fatores explorados por De Vries. Inovações tecnológicas na navegação, desenvolvimentos institucionais que favoreceram o capital bem como a diminuição de práticas rentistas e o desenvolvimento de um mercado consumidor. Aqui ele fecha o artigo com uma discussão da industrious revolution, sua tese acerca do desenvolvimento de um grupo consumidor no noroeste da Europa. A lógica camponesa de balancear trabalho e lazer dava lugar ao consumo de bens anteriormente reservados apenas às elites como tecidos asiáticos, açúcar, chá, café e outros produtos produzidos em um nível inédito no mundo atlântico. Depois faço um post descrevendo melhor a tese do Industrious Revolution. O negócio é espetacular.


Notas

  1. Jan de Vries, The Industrious Revolution: Consumer Behavior and the Household Economy, 1650 to the Present, 1st ed. (Cambridge University Press, 2008).
  2. Paul M. Sweezy, Maurice Dobb, and Christopher Hill, The Transition from Feudalism to Capitalism (Aakar Books, 2006).
  3. Immanuel Maurice Wallerstein, Modern World System II: Mercantilism and the Consolidation of the European World Economy, 1600-1750 (Studies in Social Discontinuity) (Academic Pr, 1980).
  4. Kenneth Pomeranz, The Great Divergence: China, Europe, and the Making of the Modern World Economy., Revised. (Princeton University Press, 2001).