Terminando o semestre por aqui, uma maravilha. Vou deixar aqui duas dicas de leitura sobre impérios que me ajudaram muito na preparação de aulas neste semestre que chega ao fim. Quer dizer, hoje vou deixar uma, no próximo post deixo outra.
Day of Empire: How Hyperpowers Rise to Global Dominance–and Why They Fall
Esse da Amy Chua, professsora de direito em Yale, é uma leitura muito agradável. A questão é a do subtítulo, como grandes impérios emergem e por que os mesmos desaparecem? A tese é relativamente simples. A emergência de impérios com sucesso depende de algo que ela chama de “tolerância estratégica.” O Império Persa, especialmente com Cyrus e Darius, conseguiu expandir ao permitir que grupos conquistados mantivessem suas religiões e tradições. Aliás, não à toa Cyrus aparece na bíblia como o emancipador dos judeus na Babilônia. Darius leva adiante o espírito.
Se pensarmos acerca do Império Romano, tal esquema de tolerância estratégica é levado a outro nível, já que a própria idéia de cidadania é extendida para diversos grupos conquistados. Se você pegar uma lista de imperadores romanos, verás que após algum tempo apareceram indivíduos nascidos em outras partes do império como Espanha ou norte da África.
E assim o livro caminha, explorando diversos casos desde o Império Persa até os dias atuais. Claro que um livro desses é baseado quase que completamente na literatura secundária. Mas digerir e apresentar de forma concisa e clara um conteúdo tão amplo de história do mundo requer muita habilidade (coisa na qual minha amada turma da sociologia histórica é especialista). Ela faz esse trabalho com muita qualidade. Os capítulos são uma grande introdução para a história destes impérios, ainda que os experts em cada um dos temas provavelmente encontrem problemas específicos.
O Império Mongol segue o mesmo caminho, com Genghis Khan (ou Chinggis Khan, se quisermos usar o nome mais apropriado) incorporando de forma tolerante povos conquistados. Evidentemente tal incorporação se dava entre aqueles que abriam suas portas para os Mongóis. Caso contrário, eles sabiam muito bem como usar a violência e o terror de forma muito efetiva em seus confrontos com diversos reinos euro-asiáticos. Um aspecto interessante do Império Mongol é a busca deliberada por especialistas entre os povos conquistados, incorporando novas tecnologias e técnicas de guerra e administração. De certa forma isso não era novo, o famoso exército dos DEZ MIL IMORTAIS do Império Persa (caricaturizado no engraçado 300, com até mesmo NINJAS no meio do exército de Xerxes) era composto por indivíduos com habilidades específicas. O poder da marinha Persa, por exemplo, vinha principalmente dos Fenícios, conquistados e incorporados por Cyrus.
Assim a autora vai chegando até o século XX, analisando como se deu historicamente tal “tolerância estratégica.” No caso da expansão dos EUA (que é, evidentemente, da onde partem suas inquietações quanto à emergência e queda de superpoderes), a autora demonstra como o sucesso militar dependeu dessa mesma incorporação de indivíduos e conhecimentos de outras partes. Cientistas migrando da Alemanha nazista para os EUA tiveram seu papel no desenvolvimento da tecnologia nuclear. Mais tarde, o desenvolvimento do microchip no famoso “Silicon Valley” também contou com mão de obra e conhecimentos garantidos por uma maior abertura à imigração e incorporação de estrangeiros na sociedade norte-americana.
E por que superpoderes acabam? Ela não oferece uma resposta direta para isso, respeitando um pouco das peculiaridades históricas de cada caso. Mas ela nota um elemento comum em todos os momentos de decadência de impérios, que é a emergência da intolerância e o abandono da tolerância estratégica tão cara à autora. No caso do Império Persa, por exemplo, temos um comportamento muito mais opressivo e homogeneizador por parte de Xerxes. No Império Romano, há a crescente perseguição à pagãos uma vez que o catolicismo é adotado como religião oficial do Império. No século XX, temos o exemplo mais extremo de como a intolerância vai de encontro à ambições imperiais já que, não por acaso, o Império Nazista foi um dos mais curtos da história do mundo.
Uma das críticas possíveis está na seleção de casos, evidentemente. Para a China, por exemplo, a autora se dedica à discutir o Império Tang que, por sinal, cai como uma luva nessa discussão de “tolerância estratégica.” Em um momento inicial incorporam diversas religiões, em um momento de decadência perseguem budistas e destróem templos. Gostaria de ter lido, no entanto, uma discussão sobre o Império Qing. Nesse caso o grupo conquistador era externo, os Manchús do norte da China, e, apesar de incorporarem idéias e indivíduos da China, a relação era muito mais complexa. O fato de que um corte de cabelo específico foi imposto aos chineses conquistados (o queue), com o massacre daqueles que se recusassem a adotá-lo, me parece complicar um pouco o esquema.
Nesse sentido, achei o estudo de Jane Burbank e Frederick Cooper mais satisfatório.
Empires in World History: Power and the Politics of Difference
A questão aqui é muito parecida, ainda que as questões do presente não sejam tão evidentes quando no livro de Chua. Em Day of Empire, a preocupação da autora é claramente com o lugar dos Estados Unidos no mundo atual e quais políticas devem ser adotadas para o prolongamento da posição proeminente do país.
Burbank e Cooper me parecem menos “presentistas,” tentando entender os sistemas de dominação dos diversos impérios históricos e, a partir daí, elaborar esquemas mais gerais de compreensão. A linguagem é definitivamente mais complexa, ainda que as questões sejam bem semelhantes, e o número de temas e impérios abordados é muito mais amplo do que o Day of Empire (escapando da crítica de uma seleção enviesada para confirmar o esquemão). O autores exploram a mesma idéias de “tolerância estratégica,” ainda que não usando tal termo. Mas observam os processos de negociação entre impérios e diferentes grupos, bem como as tensões daí emergentes. Os capítulos finais sobre o século XX são muito mais amplos que os de Chua e, nesse sentido, me satisfazem muito mais, já que a preocupação não é exclusivamente com os Estados Unidos. Há uma discussão excelente, por exemplo, sobre a reformulação de impérios após a Primeira Guerra Mundial e a emergência de movimentos pela independência na África e Ásia ao longo do XX. Aqui o trabalho também é feito em cima de bibliografia secundária, mas muito mais ampla e especializada que no caso de Chua.
Enfim, ambos funcionam muito bem juntos. Para uma leitura mais relax e agradável, a escolha é Day of Empire. Para uma leitura mais densa e, a meu ver, mais ampla e bem-informada, Empires in World History.

